17/06/2010

Carícia

Quem é tolo de pensar
que um adeus
encerra o amar
e o tempo apaga tudo
versos de areia
nas águas do mar

Desconhece
a grande verdade
que nada some
nada se vai
e sofre, cai
chora a saudade

Pois no mundo de quem ama
entranhado
o eterno amor
aprisionado
viciado
peito rasgado
imerso em dor

Nada mais
só paixão
alimenta a ilusão
da eterna alegria
fantasia
que sacia
o coração

Insensato coração
arrasta, alucina
cruza o mundo
extasia, fascina
mata exausto
quem mais te estima

Mata
e me entrega
nos braços daquela menina
que há tempos sei
naqueles seios
minha fadiga
termina

14/06/2010

Finda palidez

Nem tudo
no contexto
já nem me aborreço
qualquer coisa
um pretexto
e assim a vida vai
para mente
abro o fecho
coração
fiel desfecho
me calo
pago o preço
mas nada vês,
desapareço

22/05/2010

Desapego

A voz não se propaga
No silêncio das verdades
O olhar não penetra
A muralha dos preconceitos
Quem não cria escudos,
Amortalha paixões insanas
ou cativa seus orgulhos?

Tolos os sábios e amigos
Não há quem queira ouvir
Não há quem saiba ouvir
profetas do fim prescrito

Só o lacerar da realidade
Dilacera sorrisos perversos
Esmigalha alegrias sádicas
Doutrina pérfidos costumes

Ó querido trincar da esperança
abstem e aniquila sonhos
devolve o sentido da vida
Aos loucos que não sabem amar

17/05/2010

Não mexam com a institucionalidade das coisas...

Um dia o homem chegou
cheio de grana na cidade
abriu comércio, fez amizade
virou prefeito, fez caridade
e todo mundo aceitou
o império sugerido
pelo homem de integridade
pra melhoria da cidade

Depois de anos de dominio
Quando virou um quase-rei
Voltando duma viagem
Saiu do carro, acenou
E feliz abraçou,
seu amante guêi.

Todos sorriam,
amarelados
Suavam frio
pelo grave caso
Mas como era o rei
causador do acaso
eles logo abraçaram
quem estava do lado

Um tempo depois,
depois do instaurado
voltou para o reino
um pobre coitado
que foi tentar a sorte lá fora
e voltou todo lascado

Sua mãe virou pai
O pai, avó
A tia, sobrinho
E o papagaio,
curió

E ele que não se virou
nem lá fora, nem cá
Foi condenado a morte
e no estopim da confusão
com a presença do rei
esbarrou no tal amante
na região bagulhar
e por incrivel que pareça
fez as bola arriar
e o tal amante guêi
era uma morena de matar

Todo mundo ficou possesso
e pra tudo acabar
mataram o rei e a morena
e mataram o pobre coitado
só pra ele aprender
que viadagem institucional
queimação prêt-à-porter
depois que o povo acostuma
quem chega de fora e quer se meter
nada mais merece,
o bem merecido morrer

11/05/2010

Level up

Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinícius de Moraes

09/05/2010

(L)

Mãe,

O caminho é deserto
As pessoas distantes
Os amores incertos
E o rio, um gigante

A distância corrói
A saudade me afeta
O silêncio perturba
O sorriso se fecha

Cada passo, penso
Cada penso, lembrança
E os tempos aí perto
Alegram cá essa criança

Não é infinita a distância
Não é eterno o dispersar
Os labores, quem sabe se findam
Mas o rio, maior que o mar

Porém,
mais que a distância infinita
e o mais penoso labor
maior que tudo é a saudade
mais resiliente é nosso amor

02/05/2010

Regozijos de primavera

Tantas flores no campo
delicadas, perfumadas
Sento na relva e contemplo
todas belas, únicas
todas perfeitas
Qual devo colher?
A mais próxima? A mais distante?
Deito entre elas,
e numa suave brisa
o vento me responde
soprando leve em meu rosto
o olor mais exultante
que brota de todas elas

27/04/2010

Tic......

O destino é frio, O tempo egoísta
Agem por caprichos,
cruzam caminhos distantes
apagam a luz bem no meio
desnorteiam os pobres mortais
atrasam meu relógio, aceleram o teu
me escondo do sol, tiro a bateria, tento esquecer
mas fico pensando: quanto tempo vai levar,
até eu te conhecer?

24/04/2010

Internet Discada

Liga o computador
espera
clica na janela
digita
clica
espera.
espera..
espera...
conecta
abre o navegador
escreve
escreve
escreve
clica
espera.........
erro
respira.........................................
.......
atualiza
apagou
respira.........................................
................................................
....................
escreve
escreve
clica
espera............
erro
chuta a parede
respira.........................................
................................................
................................................
..............................................
escreve
clica
espera................
enviado
fecha
desliga
e vai beber porque tá foda essa internet

16/04/2010

Encontros secretos

Do discreto odor que teu olhar emana,
que me enrijece sonhos, quando encaro a ti
Do timbre excitante, dos lábios lascivos
que abrem e fecham para meu prazer
Dos cabelos longos, guardiões de tua nuca
algozes cruéis do meu ímpeto vampírico
Tu, nêmesis nefasta,
que me condenas ao eterno desejo
carnal, visceral,
desejo
Tu, que só encostas em minha jaula
desaparece de meus sonhos, ao fechar da porta
me entorpece, excita, castiga,
e num ensejo
me sela a boca, venda os olhos
matando aos poucos, cerrando a sorte
com o suave veneno, que reaje tão forte
na intensa morte,
que me causa teu beijo

13/04/2010

Siesta feira

Sexta sairei de casa, lamentando ter deixado minha cama, forçado pela necessidade de beber,chegarei no show meia-boca, com as calças sujas de lama, troco uma idéia, sorrio, fecho os olhos, ouço o som, te imagino chegando, vestido longo, cabelos longos, abro os olhos, acaba o show, como sanduíche com refri, sorrio mais um pouco, menos conversa (já tou cansado), chego em casa, embriagado e afim de dormir, lamentando ter descrito minha sexta, na terça-feira...

11/04/2010

Para a moça onde a rima termina

Procuro no amor uma alegria
uma alegria que o amor não alimenta
mas de teimoso continuo na agonia
e na tristeza de alguem que sempre tenta

Me apaixono pela brisa
pela bela moça a passear
cedo a luxúria da vida,
confesso
mas quem não o faria
tendo um mundo pra flertar

Porém, o espelho da verdade se mostra
e me vejo como o mais tolo
que se engana, fugindo da resposta
tentando na beleza do mundo,
esquecer de quem mais gosta

Ó suspiros da lembrança,do que nunca aconteceu
da vontade que exala, do amor que não nasceu
dos teus lábios que me encaram
dos laços que nos separam
teu amor do meu

Mas o mundo sempre gira tonto
e na curva que dá, te encontro
pra no fundo dos teus olhos compreender
que o amor que sinto pelo mundo é um só,
é só o amor que sinto por você

(porque um sorriso pode ser descomunalmente devastador)

Às crônicas de verdade

Ele finalmente terminara a crônica após dias sem inspiração, problema que podia agradecer à sua filha e sua gravidez repentina e precoce, dezessete anos e muitas dores de cabeça pro paizão. O texto era sobre um tema recorrente e bem mundano, uma ida ao supermercado com os filhos, e por isso requeria uma veia irônica profunda para ficar bom, e ironia no momento, era sua vida. O texto ficou bom, título melhor ainda, dava até para rir internamente enquanto se assegurava que tudo estava nos conformes. Porém, uma idéia ressurgiu em sua mente, e emergia mais constante ultimamente, algo que deveria se assemelhar a frequência de pensamentos sombrios de um assassino. Enquanto mirava na parede as últimas páginas enviadas pela editora para que ele aprovasse a impressão, viu o seu grande temor se manifestar, as cinco primeiras palavras com letras garrafais. Não se lembrava quando, nem como tinha surgido isso, mas essa tática, que parecia inocente, algo como uma marca registrada ou brincadeira, aos poucos foi causando desconforto pela aparente importância dada pelo público. Cinco palavras que nada diziam sobre o todo, mas que todos diziam ter algo de muito. Frustrante. E ao relê-las no texto, viu que estas, especialmente, não diziam nada MESMO, nem sobre supermercado, como podia? Quem dentre esses tolos que consideravam as cinco palavras mágicas entenderia a graça do texto? Eram tolos, mas também compravam seus livros, isso teria de ser considerado. Resolveu apagá-las. Mas rapidamente viu que se as apagasse, estaria agindo de forma errada com seu querido público, teria de educá-los com palmatória, não ceder-lhes aos pensamentos equivocados. Estaria estimulando a leitura resumida, presumida e presunçosa, o misticismo de cinco palavras mágicas, coisa de bruxo e duende. Inaceitável para seus padrões de intelectualidade racional, que tanto demorara para adquirir. Resolveu dar um tempo. Foi tomar um café olhando para a rua. Dia chuvoso, agradável, duas jovens passavam conversando algo sobre um show que iria acontecer, muito eufóricas. Pensou nelas e como as cinco palavras poderiam destruir suas vidas se as condicionasse ao misticismo presumitório de seus textos, e se elas extrapolassem tal mau comportamento para o mundo? Um absurdo! Preconceitos, guerras, má gestão admnistrativa dos bens públicos, o fim da civilização! E resolveu, pelo bem da humanidade, deixá-las intactas, nada de dicas ou pistas, assim daria àquelas duas garotas a chance de conhecer o mundo de verdade, sem resumos ou preceitos quiméricos. Um mundo vero, e um pensamento, veríssimo.